domingo, 21 de junho de 2009

bailarina prisioneira

sabe aquelas 'paixões' por pessoas desconhecidas que encontramos de vez em quando?

a minha é a bailarina prisioneira.

toda terça e quinta-feira é dia de encontrá-la, sempre sorrindo atrás do portão que a separa daquele mundo estranho dos primeiros minutos de fim do horário comercial. pessoas correndo, ligando para namorados, amigos, amantes. pessoas com fome, pessoas sorrindo, pessoas planejando o que fazer nas horas que lhe restam do dia. pessoas sozinhas com a sinfonia de buzinas ao fundo.

e a bailarina parecendo tão inabalável ali com seu sorriso. o cabelo ainda preso e sapatilhas na mão. imagino como seria a sua voz ou a sua risada com o cabelo solto, caindo sobre os ombros naquela luz do sol de fim de tarde que parece procurá-la.

nem cogito a hipótese de falar com ela. prefiro que continue atrás das grades daquele portão e do meu pensamento. e sempre com o sorriso no rosto.

sábado, 20 de junho de 2009

sobre jardins e lixos

Alan estava cansado. Queria olhar pela janela, mas sabia que a realidade por trás daquele vidro embaçado não iria agradar.
Não aguentou e deu uma leve puxada na cortina. Corre lentamente os olhos pelo gramado e lá estava ele novamente: o lixo. O problema do sujeito era que esse lixo não lhe pertencia, por algum motivo outros traziam os lixos deles para seu jardim.
As pessoas que ali passavam tinham como primeira imagem aqueles sacos de material em decomposição, o jardim de Alan não era sequer olhado pelos transeuntes. Ele ia até lá quando o Sol já não era mais o seu holofote natural, tirava aquele lixo dali, limpava o churume que corroia sua calçada e regava seu gramado.
No dia seguinte lá estava o lixo novamente e Alan já não agüenta mais isso. Por que as pessoas tinham que trazer mais lixo para alguém que já tem o seu? Por que cada um não cuida de seu lixo? Você produziu o seu lixo, por que eu teria que ficar com ele na minha porta?
A solução para Alan parece ser simples. Seu jardim não ficará mais à vista das pessoas. Irá erguer ali um muro alto, que esconda tudo dos outros. Não mais verão jardim ou lixo.
E Alan não terá que tratar com a podridão dos outros.

sábado, 13 de junho de 2009

II

só percebo que errei o caminho quando me encontro sozinho e só me acho novamente ao fugir dessa sombra que me persegue. essa sombra passada que tem minha forma, mas não sou eu. que tem minha voz, mas não sou eu. não sou eu.
rompo com ela ao cortar os punhos e me livrar dessas algemas. o sentimento de liberdade é o anestésico para o cortes.
vejo frases curtas entrecortadas pelos meus pensamentos. e pela voz de bethânia que rasga a noite. vejo garrafas vazias. vejo os olhos pesados no espelho. esses olhos não são meus.
e me deito nessa cama de bitucas. e vejo as frases curtas com muitos pontos. muitos pontos e poucos finais.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

cruzeiro do sul

me pega pela mão e me mostra caminho de volta pro teu colo. sinto falta da segurança que me passava ao cobrar atitudes de 'gente grande' que, até então, eu não saberia ser capaz de ter. tinha a certeza de conseguir o que pedia.

deito na minha cama e sinto seu cheiro no travesseiro. saio como animal caçador atrás de ti pela noite afora. talvez essa busca em minha mente seja o que algumas pessoas chamam de sonho - ou alucinação.

tenho delírios por dias seguidos mas o relógio não se move.

preciso te reencontrar para encontrar o meu caminho no brilho de seus olhos. e ali me perco. e ali me acho. e ali eu cedo. e ali eu caio.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Sacrifício

- E aí Norberto, como vai?
- Tudo bem. E com você?
- Bem, também.
- O que conta de bom?
- Ah rapaz, estou escrevendo minha biografia.
- Nossa que bacana. Mas sua vida é normal, não é Edson? Quero dizer...essas personalidades que tem essas coisas, não é?
- É, então...cheguei ontem a mais ou menos hoje, escrevi quase nada e não tenho o quê escrever.
- A gente só serve pra isso quando morre. Cê sabe que outro dia eu tava lendo o obituário do seu José, aquele do clube, não fez porra nenhuma a vida inteira, mas o texto me deixou comovido, chorei com o texto o que eu não chorei pela morte do coitado! Hahaha

Edson ficou pensativo. Observou um ônibus que vinha em alta velocidade. Olhou para Norberto e empurrou-o na rua.
Assim ganhamos os dois.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Vocação

Que inveja eu tenho do florista. Sujar as mãos - e até as unhas - de terra, não me importariam. Terra sai fácil, com água corrente mesmo. A tinta mancha. Agarra-se à pele. É um quê fazer pra tirar. E as flores você não precisa explicar pra vender. Descrever-lhes as qualidades: esse é um autêntico lírio, da família das Liliáceas, encantando as pessoas desde Confucio; e bendito desde Cristo, nas palavras de São Matheus "Olhai os lírios do campo; eles não trabalham nem tecem; no entanto eu vos digo: mesmo Salomão, em toda sua glória, não se vestiu como um deles". Quem não quisesse comprar, estúpido que fosse. Ah e eu não teria que ficar lendo poesias pra agüentar o expediente. Talvez apenas O guardador de rebanhos, mas só para lembrar delas e largar o livro. E eu leria no livro e não no computador, assim quando eu fosse deitá-lo ao lado, realmente eu o deitasse ao lado. Não clicar num X que faz desaparecer o que vejo na tela (por que o X será hein?). Os outros itens até que lembram o que causam, digo a janela ficar maior ou menor: tem duas janelinhas, se bem que do mesmo tamanho...Bom, mas não serei ingrato ao computador já que me sirvo dele, agora. Além do que, numa floricultura, eu não me perderia nessas divagações estúpidas que tanto me comprazem a inteligência. Eu não precisaria me sentir inteligente. Ficaria lá, escravo dos sentidos.

domingo, 24 de maio de 2009

Na saída do restaurante, uma mulher quase deitada pede esmolas. “Não tenho dinheiro, eu marco nesse restaurante...” As esmolas atrasam a revolução. Falsa caridade. Vaidade. É fácil jogar uma moeda e se sentir bondoso, filho de Deus, companheiro do sofredor. Anestesia social. Mas repetir isso pra mim mesmo não me deixa melhor. Pra falar a verdade, me sinto mais mesquinho ainda. Porra, uma moeda.

Alguma quadras abaixo, na entrada de um estacionamento, uma mulher observa triste um cone obstaculizando o portão: está lotado. Minha compaixão é muito grande, não distingue classe ou cor. Dirige-se dessa vez à mulher do carro. Sinto vontade de tirar o cone “Entre!, esqueceram de um lugar ali...” Mas ia ser pior. Medida paliativa. Pioram as coisas, depois. Imagino-a manobrando puta o carro e me xingando.

Medito sobre o ocorrido. Parábola marxista. Talvez minha moeda equivaleria a ação de tirar o cone do caminho. Mais pra frente as duas iam se fuder. O que fazer então? Nada? Me acusariam de conformista...”Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,//quer para fazer bem, quer para fazer mal.” Alberto Caeiro. Ah quantos argumentos para ser mesquinho.